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O que se pode fazer de tecido de capulana

A arte de uma portuguesa em Maputo

Dulce Melo vive há onze anos em Maputo mas ainda não perdeu o sotaque nortenho de Portugal. Vê-se que é uma mulher feliz. Adora trapos e olhou para as capulanas, panos que vestem as mulheres moçambicanas, e há oito anos resolveu inventar um novo uso: começou a fazer sacolas, chinelas, botões, colares, aventais para garrafas, sandálias, sacos para sapatos, sacos para embrulhar presentes, pagelas, enfim uma colecção de materiais que depressa foram cobiçadas pelas amigas, a quem vendia. “Comprei uma máquina de costura aqui em Maputo e entretinha-me. Gosto de criar. Estou sempre a magicar e agora até já sonho com as peças”, diz a rir.

Há cinco anos uniu-se à Associação de Artesanato que se intitula o Cantinho do Artesão e abriu uma lojinha na Fortaleza Nossa Senhora da Conceição, na Praça 25 de Junho onde além dos seus materiais aceita obras de artistas moçambicanos à consignação. “Nestes não ganho dinheiro. Só coloco uma margem de 50 meticais porque embrulho sempre as compras numa sacola de capulana e tenho de comprar o tecido e pagar à costureira”, explica. Sente-se orgulhosa por já empregar duas mulheres e ajudar outras a ganhar a vida. Afirma que em Moçambique as mulheres são lutadoras e a nível de artesanato muito activas. Por exemplo: “A senhora que me faz os sacos neste momento tem ordenado. Pago-lhe ainda o pequeno-almoço, almoço e transporte e assim consegue ganhar a vida para sustentar a família”.

No entanto, não se pense que não trabalha, pois tudo passa pela sua mão. Conta que há dias que fica até à uma da manhã a costurar mas que há outros em que relaxa. “Aqui tenho muito tempo livre. Em Portugal era diferente”, afiança. Dulce Melo não gosta de trabalho repetitivo e vê-se pelas suas peças, pois há malas com diferentes designs, assim como as sandálias em estilo romano mas feitas de tecido de capulana. “Faço as tirinhas, depois o sapateiro faz a sola. De seguida em casa ainda faço acabamentos”, conta, dizendo que o pior são os prazos de entrega. Outra coisa que faz questão de realçar é que compra todos os materiais localmente, uma forma de ajudar o comércio moçambicano e não pratica preços acima do real valor. “É tudo Made in Maputo”, diz a brincar. A maioria dos seus clientes são estrangeiros. E, apesar de já lhe terem roubado algumas ideias, pois é fácil ver bolsas à venda na rua não se importa, dizendo a sorrir: “Há sempre quem tenha a ideia, depois os espertos  aproveitam-na mas é mesmo assim a vida.” Não se considera empresária porque na realidade é um negócio de artesanato mas sente-se realizada. Afirma que o povo moçambicano é muito dócil e que nunca sentiu dificuldades para levar as suas ideias ao mercado.

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